Compromisso

Era um sábado qualquer. Meu dia de folga. Aproveitei para organizar e limpar o apartamento. Tinha que levar umas peças de roupa também à lavanderia e comprar um novo detergente. Tirei o dia para cuidar do meu habitat.
Após horas e horas de trabalho doméstico, meu celular tocou. Era Adriano. E me convidou a conhecer sua casa. Marcamos de nos encontrar numa cafeteria, pois ele tinha novidades para contar.
Já estava no local marcado. Acendi um cigarro e solicitei um café. Como cheguei um pouco adiantado levei meu livro para matar o tempo.
“... O menino trazia uma fatiota leve, de fazenda lavável, listrada de azul e branco. No peito do blusão havia uma laçada vermelha, e uma gola branca, bastante simples, descia do pescoço. Acima dessa gola, porém, quem nem se quer harmonizava bem com o caráter elegante do fato, descansava a corola da cabeça incomparavelmente formosa, a cabeça de Eros, a luzir com o brilho amarelado do mármore de Paros, com finos e sérios sobrolhos, as têmporas e as orelhas cobertas pela entrada retangular da cabeleira escura e suave...”.
Estava tão concentrado na leitura que nem reparei que ele sentara ali ao meu lado. “Pelo visto, você não larga esse livro, né?”. Eu falei: “Não há mais nada interessante na vida do que a beleza do amor. Seja indiscreto, platônico ou até mesmo degradativo”. Não me considerava um gênio, mas Thomas Mann soube trabalhar as personagens desse romance. Uma história que pra mim retratava a fraqueza intelectual e afetiva do ser humano cuja paixão de um homem por um garoto mais novo o desequilibrara e o deixara implacavelmente confuso quanto aos seus sentimentos levando a sua própria morte. “Quando morava em Portugal mantinha contato com colegas na Alemanha que assistiram ao balé Tod in Venedig, sabia?”. Eu disse: “Já ouvi falar. ‘A Morte em Veneza’ é um clássico da literatura”.
Adriano era meu Tadzio. Fechei o livro e ficamos ali por mais meia hora falando a respeito do que havíamos feito durante o restante da semana. Ele me contou sua novidade. Estava escrevendo um livro de terror. E pra quem não sabia ele formou-se em literatura e amava livros e filmes com a temática do horror. Ele era fã da literatura lovecraftiana. Para quem não conhecia Lovecraft foi um dos maiores escritores de horror do século XX e homenageado por autores como Anne Rice de ‘Entrevista com o vampiro’ e Stephen King.
Depois que ele contou suas novas experiências fomos para sua casa. Quando pisei no local, minha surpresa. Seus pais me aguardavam. Depois até entendi o porquê da ligação quando uma voz feminina atendeu aquele telefonema.
Seus pais queriam me conhecer, porque fui o responsável pelo seu retorno ao país e ao convívio com seus familiares. Notei que a partir desse dia estávamos definindo nosso relacionamento.


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2 Response to "Compromisso"

  1. Anderson de Paiva says:

    pessoas descoladas e de mente aberta!

    eh isso aew!

  2. Luiz87 says:

    [envergonhado dos meus sentimentos por ti]
    [ansioso para saber o final. Afinal, quero saber se essa vergonha é necessária]