Mortes

Sexta-feira, 06 de agosto de 2004. No meu quarto lia ‘A Morte em Veneza’: “...Pouco tempo bastava para que o observador conhecesse cada linha e postura daquele corpo sublime, a exibir-se tão generosamente. Uma e outra vez saudava toda essa beleza que já se lhe tornara familiar. A admiração, o delicado prazer dos sentidos não tinham fim. Chamavam o menino, para que cumprimentasse uma visita que viera apresentar seus respeitos às senhoras reunidas em frente da barraca, e Tadzio vinha correndo, depressa, talvez molhado, porque saía do banho. Sacudia os cabelos compridos, e ao estender a mão, colocava o peso do corpo numa das pernas, e apoiando o outro pé nas pontas dos dedos, imprimia ao tronco uma rotação e inclinação realmente encantadora. Nesse movimento expressavam-se a graciosa tensão, a timidez originada pela cortesia e o narcisismo de quem tinha consciência de sua nobreza. Ou ele jazia no chão, estendido, com o peito enrolado na toalha de banho. Ficando na areia o braço de linhas elegantes, aninhava o queixo na palma da mão...”.
O interfone tocou. Parei minha leitura e fui checar. Era Adriano. Ele aparentava uma cara de preocupação. Perguntei o que lhe afligia. Ele estava em crise intelectual. Não sabia como dar uma continuidade a sua história. O livro que ele escrevia tinha terror, suspense e um pouco de drama. Mas faltava alguma coisa ao personagem central
Enquanto lia os capítulos escritos por ele, analisava o personagem. A obra se passava na França do século XIX, durante o período da Revolução Francesa no ano de 1789. Os personagens estavam densamente caracterizados. Um ambiente fantástico com vampiros e lobisomens. Porém o anti-herói do romance não tinha essência. Faltava-lhe um pouco de malícia. Ele pertencia à nobreza.
Sugeri que a Adriano que ele mudasse de foco. Ao invés de centralizar a história num rico, poderia pegar alguém da burguesia que estava em ascensão na época. Uma pessoa que aparentava classe, inteligência, beleza física, mas que fosse de outra esfera. Um gigolô, talvez. Um amante de homens e mulheres que adorava assassinar suas vítimas após o ato sexual. Que tivesse um pouco da simbologia do quadro ‘A morte de Sardanapalo’ de Eugène Delacroix. Uma pintura romântica impregnada de violência e erotismo.
Foi aí que ele sorriu e viu que era aquilo. Era exatamente isso que lhe faltava. Ele me agradecera tanto por te-lo iluminado que minha recompensa foi uma noite de sexo inesquecível.


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1 Response to "Mortes"

  1. Luiz87 says:

    uhmm...

    Bela Recompensa..