SoGo

Depois de transar, eu e Adriano ficamos ali deitados no chão da sala olhando pro alto. Momento sagrado. Ou profano como queiram. Apenas sentíamos nossas respirações. Nada de palavras, somente sua mão sobre meu peito suado. Ele queria sentir as batidas. E eu pensava no que tinha feito pela manhã. Sentia-me culpado por ter reagido daquela forma. Amava Adriano acima de tudo, mas não podia negar que me sentia atraído por outros homens.
Após alguns minutos de auto análise. Virei e o beijei. Sua boca era levemente doce. Suave e firme. Meus lábios quentes tocavam os seus e percorria até o pescoço. Ele tremia e aspirava mais. Sussurrava sons carinhosos e indecentes ao seu ouvido. Ele gostava e eu adorava.
Ficamos por horas ali naquelas carícias e afagos. Enquanto o beijava, o celular tocou. Atendi, poderia ser uma emergência. Quase ninguém ligava para meu número. Do outro lado da linha, Dan. Ele nos convidara para sair. O destino: SoGo.
Mais tarde antes de ir para boite emprestei uma roupa ao Adriano. Apesar das peças ficarem aqui, ele tinha poucas opções. Meu namorado usava uma calça jeans, uma camiseta preta por baixo, uma camisa xadrez e por cima o meu colete com capuz. Eu preferi meu tricô e uma calça sarja alfaiataria. Ele parecia um adolescente. E eu, Maurício.
Pegamos um táxi e entramos na boite. A balada estava apenas começando. Era quase 1h da manhã. O som que rolava ‘Ride it [Hex Hector Remix]’. Muita gente conhecida, alguns atores de novelas enrustidos e várias barbies. O ambiente estava completo.
Dan, Clara e Otávio nos aguardavam no bar. Enquanto andávamos em direção ao local reparei que alguns nos olhavam descaradamente. (Sinto muito mais não curtia swing e muito menos sexo grupal). Porém não podíamos fazer nada naquele campo minado. Além disso, surgiam alguns espertinhos com um papo sem futuro para nosso lado.
Muita fumaça, muita luz e som no último volume. A batida era tão forte que meus ouvidos quase não suportavam. A música que o DJ animava era ‘Put the needle on it [Jason Nevins Remix]’. Adriano dançava discretamente. Eu só reparando no seu gingado. Clara estava bonita por fora, mas triste por dentro. Ainda continuava desempregada. Artes plásticas era uma carreira um tanto quanto complicada. Ela não aproveitou as chances que surgiram durante a faculdade... Bolsas de estudo na Europa, estágio em museus, galerias e vernissages. Ela era uma boa pintora, mas precisava de network urgente.
“Dança mulher... Se joga”. Ela apenas dava um sorriso tímido. Aquilo até me preocupava. Nós (eu, Dan, Otávio, Henrique e Valentina) teríamos que prestar mais atenção nas atitudes dela. Suicídio era e continua sendo moda entre pessoas de nossa geração.

A boite fervia. Otávio parecia um doido dançando. Dan continuava seu affair com seu psicólogo e eu beijava meu menino sem parar. Às vezes maneirava para curtir meu segundo garoto, Carlton.
Stranger in my house [Thunderpuss Club Remix]’ era a bola da vez. Apesar de a música ser um pouco ultrapassada valia a pena escutar a voz de Tamia ou os gritos dela. Otávio não se encontrava no seu estado normal. Provavelmente ingeriu alguma droga, estava completamente pirado. Clara até rira da situação.
Enquanto nos divertíamos ali naquele início de domingo aproveitava para exorcizar meus pecados. Muitos iam à igreja naquele dia bem cedo, porém eu e minha turma já rezávamos bem antes nas batidas do drag music.


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2 Response to "SoGo"

  1. Luiz87 says:

    Adorei.
    Vou ler o restante, e parar de comentá-los.

    Como dizem os Pet Shop Boys: "Its being boring..."

    Mas vou lê-los. Todos.

  2. Luiz87 says:

    P.S.: Faltou o apóstrofo entre o 't' e o 's'.

    Adoro metalinguagem. É tão diferente.