Narciso e Goldmund

10 de setembro de 2004. Saí do trabalho e fui até a livraria Gaudi. Sentia que meu nível de Q.I. estava baixíssimo. Olhando os estandes não conseguia compreender porque tantas pessoas precisavam de livros de auto-ajuda. Talvez nossa sociedade preservasse tanto a individualidade que era interessante compartilhar suas dores entre centenas de páginas do que com um grupo de amigos ou até a própria família.
Recordo-me de um artigo que li numa dessas revistas semanais de informação onde ‘consumíamos pão e água, circo e arte. Consumíamos brinquedos chineses e carros alemães. Consumíamos livros de auto-ajuda e idéias de segunda mão. Consumíamos armas e lágrimas. Consumíamos bem e consumíamos mal. Normalmente desperdiçávamos muito e reciclávamos pouco. Separados por linhas étnicas e religiosas, uníamos através do consumo. E orávamos todos pela mesma cartilha: consumimos, por tanto existimos’. Se não me engano era um texto de Thomaz Wood. Adorava essa cartilha porque no final das contas era minha oração de todo dia. Trabalhava para o consumo.
Estava procurando o livro de Hermann Hesse, Narciso e Goldmund, que falava sobre a dualidade da vida, das escolhas e das diferenças. Razão e emoção. Espiritualidade e ceticismo. Amor e repulsa. Tudo isso fazia parte da gente. E Hesse traduziu isso com grandiloqüência através do amor incondicional de um auxiliar de ensino por um estudante num convento.
“... Você fala sempre a respeito de diferenças – aos poucos descobri ser esta sua principal qualidade. Quando você se refere à grande diferença que existe, por exemplo, entre você e eu então acho que a diferença só existe na sua estranha obsessão em busca de diferenças!...”. Amava livros teoricistas e com capacidade de mostrar que não existia ideologia e muito menos apologia.
Adriano nesse dia não dormiu comigo devido suas aulas. Sua primeira semana seria de concentração. E ele era extremamente dedicado, todavia não parava de ligar pro meu celular.
Já em casa continuava entretido com o livro: “... Na verdade, Narciso sabia muito bem o que se passava com o amigo, pois não era cego à sua beleza que desabrochava, nem à sua energia vital, natural, e à sua plenitude em flor. Não era de forma alguma um professor que pretendesse alimentar uma alma jovem e ardorosa com o grego, ou retribuir um amor inocente, com a lógica. Demasiadamente e cada vez mais amava o adolescente louro e isto para ele significava um perigo; pois, a seu ver, o amor não era um estado normal e sim, um milagre. Não podia se apaixonar, satisfazer-se com a contemplação agradável de seus belos olhos, com a proximidade daquela presença loura, fresca e radiante; não podia permitir que esse amor se detivesse, por um momento sequer, no sensual...”.
Comecei a leitura cedo e quando dei por mim já era mais de 2h da manhã. E já tivera lido mais da metade da obra. Antes de me deitar. Fui até a janela, acendi um cigarro. Avistei a cidade e notei que estava bela e obsessivamente diferente.


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1 Response to "Narciso e Goldmund"

  1. Anônimo says:

    estou a reler o livro num momento em que uma relação de quase 2 anos findou...
    incrível como a gente se engana com a idéia de amor. tal como o sábio narciso, vi que era necessária a separação para quem sabe um dia existir a perpetuação que hesse muito bem profetizou.

    abraços!

    http://imaginandoimagens.wordpress.com